Nesta última eleição vários chamados “caciques da
política” não conseguiram suas pretendidas reeleições. Antes de isso ser um
alento, é sempre bom lembrar que os novos a ocupar esses cargos não
necessariamente vão optar pela renovação dos ideários políticos, ou se vincular
as novas demandas de uma sociedade cada vez mais plural. Para melhor
exemplificar estes fatos, basta observarmos que as mudanças no quadro de
candidatos eleitos, entre outros fatores, estão atreladas fortemente a presença
de narrativas de orientação política conservadoras. Aqui no estado do Rio de
Janeiro, por exemplo, a ascensão meteórica do candidato Wilson Witzel, pelo
PSC, nesta última eleição. Witzel que, durante todo o período do pleito,
ocupava as últimas colocações entre os candidatos ao governo do estado do Rio
de Janeiro, sempre oscilando entre modestos 1% ou 2% das intenções de voto, conquista,
nos últimos dias antes da eleição de primeiro turno, 42% dos votos válidos,
sendo esse percentual representativo de mais de três milhões de eleitores, através
de transferência de votos orientadas por igrejas neopentecostais, como a
Universal e Assembleia de Deus e que acabaram por fazê-lo lograr o governo do
estado ao final do segundo turno. Essa façanha pode se explicar se levarmos em
conta, entre outros fatores, que aqui no estado do Rio de Janeiro, durante os
anos noventa do século passado, o índice de eleitores pertencentes a essas
igrejas não passava de 9% e agora atingem algo próximo de 27%. Eleitorado esse, hoje, bastante articulado com
o grupo político de Bolsonaro e eficaz na utilização das múltiplas plataformas
socias.
A ascensão, nesta última eleição, de Witzel e de
Bolsonaro à presidência da República (enquanto fenômenos eleitorais), e
defensores de um discurso conservador, vem com a constatação que boa parte da
sociedade reconhece a deterioração do sistema político aliada, ao que tudo
parece, a impossibilidade de uma autocrítica de partidos vinculados a ideários
socias democratas e sobre erros cometidos ao combater o conservadorismo
extremista propondo novas e originais soluções, principalmente na área de
segurança pública, mas também em educação, saúde, emprego e meio ambiente.
Ainda, por que não dizer, a recusa em constituir-se um amplo e contundente debate
sobre valores morais e éticos, fundamentalmente, em áreas onde vivem pessoas
com menor poderio econômico.
Reconhecer que Bolsonaro, Witzel, entre tantos
outros, que se elegeram, não apenas no Executivo, mas substancialmente no
Legislativo, com outsiders, “valentões” agressivos, capazes de enfrentar o
“mal” produzido pelas esquerdas “marxistas” e superar as dificuldades presentes
também deveria se reconhecer que esses mesmos não mencionam, e nem possuem,
qualquer plano político inovador para dar conta de fatos e acontecimentos
emergentes e urgentes para a sociedade.
Ao final, o que nos restará será a manutenção da
“velha política”. Velhos hábitos sendo recuperados. Provavelmente essa também
será uma demanda difícil de ser conseguida, visto que nenhum partido conseguiu
ampla maioria em seus estados e nem o Presidente da República terá no Congresso
Nacional. E para se conquistar uma coalizão pretendida como, por exemplo, a
constituída entre os anos de 1964 e 1985, seria necessário para Bolsonaro ter
maioria na Câmara e no Senado. Assim, o mais plausível seja o recuo de Bolsonaro
distribuindo, contra suas narrativas durante a campanha, cargos e ministérios
aos “aliados” do momento para a conquista necessária para a mesma. Afinal, para
o congresso, nada é de graça! Ocupar cargos em ministérios constituiu-se na
política brasileira instrumento essencial para os partidos, com o empoderamento
de suas lideranças. O problema que se faz aqui, como bem podemos observar no
comportamento de gerações passadas, é que o fisiologismo político implantado
nos partidos possui ventos muito mais favoráveis as suas próprias necessidades
políticas de sobrevivência do que as necessidades da nação. Em outras palavras,
o clientelismo se sobrepões a efetivas políticas socias, administrativas e
econômicas que poderiam nos elevar a outros patamares desenvolvimentistas.
A questão é, como contrapor toda essa ordem de
conservadorismo que nos assola e mirra com nossa democracia ainda adolescente?
Talvez devamos principiar em enfrentar, de forma clara e crítica, que há um
oceano de distância entre aquilo que podemos chamar de legalidade para aquilo
que definimos como legitimidade. Reivindicar nossa democracia através da
denúncia e do confronto de ideias, apontando essa nefasta ilegalidade
disfarçada, sorrateira, existente em nossa república.
Luciano Loureiro
2019
#Resistência
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